Vinícolas da Serra Gaúcha apostam em atrações ao ar livre para a retomada do turismo na vindima 2021

O cacho está cheio. Na Serra Gaúcha, é tempo de colher as uvas para dar início à produção do vinho. Depois de um ano dourado (foram 312 medalhas para os vinhos nacionais em concursos envolvendo outros países), a vindima 2021, que vai de janeiro a março, já está a pleno vapor, só que com uma nota diferente. Ainda convivemos com uma insistente pandemia, o que levou os viticultores da região a repensarem o formato da festa.

Com a covid-19, as atrações turísticas regadas a vinho saíram das caves e dos porões das casas de pedra e foram para o lado de fora, ao ar livre. Algumas vinícolas já recebiam visitantes em tours a céu aberto, mas decidiram dobrar a aposta — além de estabelecer uma série de protocolos de segurança para tornar o passeio seguro.

 

Pôr do sol ao sabor de vinho

Na pequena Cristofoli, em Faria Lemos, uma das novidades é o programa “Entardecer de vindima”, que inclui colheita e subida até os parreirais no reboque de um trator, onde acontece a pisa das uvas à moda antiga, ainda uma tradição em Portugal, seguida de um brunch noturno no meio do vinhedo.

É ótima a sensação de arriscar uns passos de dança com os pés encharcados de uva, enquanto o sanfoneiro toca de “Tarantella” a “Bella Ciao” e as pessoas aplaudem. No fim, você pisa num pano branco e leva de lembrança para casa.

Depois de amassar os bagos, é hora de saborear um delicioso jantar feito pelas mammas Cristofoli, que capricham na comida afetiva. De longe dá para sentir o cheiro de molho de tomate fresco e farinha artesanal. Molto buona!

Quem recebe os convidados (e também conduz o trator) é Loreno Cristofoli, pai da Bruna e do Lorenzo, que tocam o negócio com a ajuda da prima Letícia. A experiência completa dura quatro horas e custa R$ 290, somente mediante reserva.

Ali também dá para reunir os amigos num piquenique sobre o edredom esticado no meio do vinhedo (R$ 195), além de outras experiências com vinhos, sem aglomeração.

Novas rotas

Elegante, símbolo de amizade e associado a grandes ocasiões, o vinho oculta até o pior dos piores momentos. A Miolo, que recebe 200 mil pessoas por ano, ampliou o leque de atividades ao ar livre para a retomada do enoturismo, que desandou com a pandemia.

Entre as novidades, três novas rotas de visitação seguidas de degustação: uma de espumantes com DO (Denominação de Origem), outra com vinhos com DO e a última com provas de rótulos feitos ali e em outras regiões, como a Campanha Gaúcha e o Vale do São Francisco, ao norte da Bahia. Cada roteiro leva em média 30 minutos, e o visitante desembolsa de R$ 90 a R$ 150, somente mediante reserva.

Não é só isso. O crème de la crème desta nova leva enoturística acontece a 45 metros de altura, no alto da torre da vinícola, onde o público degusta quatro espumantes com DO e brinda apreciando uma bela paisagem do Vale dos Vinhedos. A experiência começa nos parreirais — onde são cultivadas mais de 40 variedades de uvas — até chegar ao novo espaço que comporta até dez pessoas de uma única vez. Todos os espumantes dessa degustação exibem o Selo da The Vegan Society, como 100% veganos e livres de alergênicos.

“São as novas tendências de consumo de vinhos”, diz Adriano Miolo, da quarta geração da família que, em 1990, lançou a primeira safra: um reserva merlot (5 mil garrafas). Em 1998, o grupo expandiu, enquanto os brasileiros ainda saboreavam o bom e velho vinho da garrafa azul (o alemão Liebfraumilch).

A visita também reserva o ícone da vinícola, o Íride Miolo Nature Sur Lie, primeiro espumante da marca com 10 anos de cave, além do cobiçado Miolo Millésime Brut 2017, com 18 meses de autólise.

Se tiver fôlego, não deixe encerrar o dia no Wine Garden, onde tem almofadas espalhadas no gramado e sempre um rosé geladinho te esperando para aquela saideira

Entre espumantes e girassóis

Saindo do Vale em direção a Pinto Bandeira, a meca dos espumantes do Brasil, um campo de girassóis chama a atenção de quem passa na estrada. Um dos novos cartões-postais da poderosa Don Giovanni. Os girassóis, explica o diretor Daniel Panizzi, fazem parte do manejo, atraindo abelhas e pássaros antes da maturação da uva. Além disso, espanta a formiga do vinhedo. É como estar dentro de uma obra de Van Gogh, só que com vinhos.

“Há sete anos fazemos um uso mais racional do solo, com a redução de fertilizantes”, diz Panizzi. “Em 2016, tentamos ser 100% biodinâmicos, mas deu ruim e tivemos que entrar com o método tradicional para não perder um ano inteiro de trabalho. Não é fácil, mas vale a pena sempre tentar, é melhor do que o uso descontrolado”, comenta.

O piquenique no bosque junto com o tour pelo campo de girassóis sai por R$ 298, incluindo duas taças, uma ice bag, um vinho ou espumante do portfólio e uma caixa de comidinhas como queijos, frios e sobremesas.

Enquanto guia os visitantes pelo campo de girassóis, Daniel Panizzi conta a história da família de imigrantes italianos, que montou o negócio em 1910. Até os anos 1980, a Don Giovanni era conhecida pela produção de conhaque Dreher (brandy no Brasil) — o destilado da uva. A primeira safra de vinhos finos foi em 1982.

O equilíbrio entre acidez e açúcar torna o espumante da Don Giovanni um dos melhores da região. Isto se deve ao terroir de Pinto Bandeira, a pequena cidade que fica a 720 metros de altitude, bem diferente do (como o nome diz) Vale dos Vinhedos, que exibe outras características de terroir.

Se a opção for pernoitar na pousada que fica dentro da Don Giovanni, as diárias começam em R$ 375, incluindo a visita. Tem ainda o novo restaurante da vinícola, com tudo preparado na brasa, um resgate da essência gastronômica gaúcha.

Rota das vinícolas

Por dentro das vinícolas de Pinto Bandeira tem uma estrada que faz a ligação entre elas. Seguindo por ali chega-se à vizinha Cave Geisse, uma das mais conceituadas produtoras de espumantes brasileiros. Está fincada no alto de um terreno muito íngreme, o que lhe confere uma soma maior de basalto (leia-se solo vulcânico); “o mineral que a gente quer para o espumante perfeito”, garante Daniel Geisse.

A vinícola fundada pelo enólogo chileno Mario Geisse em 1979 levou a degustação dos seus rótulos para o jardim, onde tem vários mesões para compartilhar e um cardápio descomplicado de petiscos e pratos. As bebidas estão disponíveis em taça (R$ 20) ou garrafa (começando em R$ 66).

Importante: a Cave Geisse cultiva apenas chardonnay e pinot noir e faz todos os seus espumantes usando o mesmo método do champagne. Ali, só tem espumantes.

Funciona de quinta a domingo, das 10h às 17h, com entrada gratuita. Chegue cedo para pegar um bom lugar, de preferência numa mesa embaixo da árvore, pois um dia de sol de verão gaúcho também pode ser cruel.

Nem tudo são vinhos

Em março, Bento Gonçalves vai inaugurar o primeiro Parque Internacional de Esculturas do Brasil, instalado num terreno de quatro hectares dentro do circuito Caminhos de Pedra. A iniciativa é do engenheiro mecânico Tarcísio Michelon, 71 anos, dono da rede Dall’Onder Grande Hotel. Serão reunidas ali 43 esculturas de artistas do mundo inteiro, pesando de 500 quilos a oito toneladas. A inspiração é o Inhotim, em Minas Gerais

Há mais de quatro décadas, Michelon se dedica a desenvolver o turismo na pequena cidade gaúcha, famosa pelos vinhos. “Foi só assoprar que o turismo em Bento começou”, diz o empresário.

Ainda no Caminhos de Pedra, ele pretende implementar a Casa da Higiene, com informações sobre banhos e práticas como a produção de sabão. Também é da vontade dele tirar do papel um projeto de cicloturismo, que trata da construção de ciclovias em vias férreas desativadas.

O pano de fundo de todo este cenário é um vilarejo simpático com 12 quilômetros de percurso (é lindo fazer a pé ou de bike) por entre casas de pedras erguidas por colonos italianos, recentemente transformadas em espaços culturais e gastronômicos.

Menu degustação 100% local

Os verdadeiros aficionados por comida optam por menus de degustação para provar as várias iguarias de cada restaurante. Mas onde poderemos encontrar estes menus com 100% dos pratos com insumos locais? É o que, impulsionados pela movimentação de turistas em razão da vindima, vêm oferecendo chefs e algumas vinícolas da Serra Gaúcha.

No restaurante Valle Rustico, no Vale dos Vinhedos, a experiência do menu harmonizado é inspirada na Borgonha, na qual parte de produtos da região para, só depois, chegar ao vinho. Acontece do lado de fora, no jardim.

O chef Rodrigo Berolla — um dos pioneiros no país adeptos do slow food, movimento que busca valorizar não só a comida, mas também o meio onde ela é produzida — serve o que chama de “cozinha de natureza”, desde as entradas, como croquete de bochecha bovina, até os pratos principais, como costela laqueada com demi glace d aligot de aipim. O menu degustação não harmonizado sai por R$ 180, somente com reservas.

Uma outra experiência interessante ali é o “Vinho entre histórias”, conduzido pela sommelier Patrícia Binz, com degustação de vinhos e espumantes. O tour gastronômico incluindo tábua de queijos e frios está no AirBnb por R$ 289.

Ainda no Vale, o restaurante Guri promove almoço harmonizado com rótulos da vinícola boutique Lidio Carraro, dona do primeiro vinho de ânfora do Brasil, vinificado em recipientes de terracota concebidos a partir da argila do solo da propriedade. Também são da Lidio os vinhos escolhidos para a Copa e a Olimpíada no país.

De clima mais descontraído, o Cobo Wine Bar, em Bento Gonçalves, oferece comida italiana contemporânea, entre carnes, massas, risotos e pescados, e mais de cem rótulos de vinhos e espumantes de todo o Brasil.

Para quem gosta de doce, sim, existe uma harmonização de vinhos com trufas. A ideia é da Cooperativa Vinícola Garibaldi, que serve cinco dos seus 87 rótulos com chocolates da vizinha Devorata Trufas Artesanais (R$ 50).

Na Aurora, uma das mais antigas produtoras de vinhos do Brasil, com 90 anos de vida, a comida é o bom e velho churrasco, harmonizado com os vinhos da marca, a primeira a ter atrações de enoturismo, desde 1967 aberta para a visitação.

A Aurora produz vinho de mesa, finos e suco de uva. Começou com 16 famílias de imigrantes italianos e hoje com 1,1 mil associados, em 20 núcleos familiares. A produção do famoso Sangue de Boi rende ao ano cerca de 65 milhões de litros. Para além da linha popular, tem espumantes bem cotados, um deles, o top de linha Heresia. Foi lançado em 2018, ano em que a Aurora iniciou a produção de vinhos pelo método da termovinificação, em que se aquece o mosto (vinho base) antes de iniciar o processo de fermentação. Para se ter uma ideia, é como se faz o vinho kosher, resultando numa bebida “mais limpa”.

“A melhor forma de estar num mercado cada vez mais competitivo é em cooperação. O orgulho de ser colono”, diz o presidente René Tonello.

O porão do charmoso hotel Casacurta foi recentemente transformado no restaurante Hostaria, onde tem menu harmonizado com vinhos da Serra Gaúcha (R$ 215), indicados pelo proprietário e sommelier César Nicoline. Quem comanda as panelas é a Dona Pina, de 80 anos, uma cozinheira de mão cheia que mescla a sofisticação da culinária francesa com a tradição da cozinha italiana e serve produtos cultivados na horta do hotel.

O Casacurta foi inaugurado em 1953, inspirado no belíssimo Châteaux de lá Loire, no Vale do Loire. Tem uma adega espetacular onde, de um ano para cá, acontecem várias experiências. Não à toa, o hotel — de acomodações clássicas e decoração elegante — foi escolhido por João e Maria Thereza Goulart para passar a lua de mel, em 1955.

Fonte:

https://www.uol.com.br/nossa/reportagens-especiais/vinicolas-da-serra-gaucha-apostam-em-atracoes-ao-ar-livre-na-vindima-2021/index.htm#end-card